Infarto no Ônibus

fevereiro 03, 2017



Resolvi postar uns textos antigos/ que produzi durante a faculdade/ novos. Vou postando mais conforme me der na telha, mas este daqui é um dos meus preferidos. Presenciei essa cena um dia e achei que valia dar aquele toque literário para um evento cotidiano tão banal, que às vezes passa batido até mesmo pela frequência com que acontece. Tem uma pitadinha de humor e um tiquinho de ironia.

Escrito originalmente em: 20/fev/2014
Por Gabriela Zanardo de Sanctis

Infarto no ônibus

 São Paulo, 32ºC de fevereiro, de 2014. Em um ponto de ônibus qualquer na Eliseu de Almeida. 
Dona Maria adentra o ônibus lotado gritando imprecações ao motorista que, segundo ela, está atrasado. Uma dor de cabeça começa imediatamente a se instalar em minhas têmporas, protestando contra o som estridente daquela voz que não para de discutir.
– Isso são horas, motorista?
– E a culpa é minha, dona? Não tem ônibus!
A irritada senhora continua caminhando, ou melhor, marchando, até o fundo do ônibus. Os outros passageiros trocam olhares de assombro, indignados com tamanha falta de educação. O coletivo segue seu caminho, mas a irritada Maria não está satisfeita. Continua derramando suas lamurias e descontentamentos nos inocentes passageiros que só queriam chegar em suas casas em paz.
– Você não tá nem ai porque não tem que bater ponto! Isso é um absurdo! Tá atrasado. Só passa uma linha aqui nessa merda, não tem mais nenhuma e você chega atrasado.
O pobre do cobrador, um rapaz de no máximo 22 anos, não sabe o que fazer, perdido no meio do fogo cruzado. Solidarizo-me com seu desespero e tento enviar uma mensagem de “tudo ficará bem” com o olhar. Um senhor de aproximadamente 60 anos, com sotaque português, também percebe o desconforto do rapaz e inicia uma conversa sobre como as pessoas eram mais educadas no tempo dele. A viagem continua. Uma pessoa desce, sete sobem.  O calor intenso faz aquela carcaça de metal parecer uma lata de sardinhas sendo cozida numa panela de pressão.
Quando a paz parecia reestabelecida, surge no horizonte um letreiro laranja. Dona Maria parece pressentir que algo grande está se aproximando. Sua cabeça gira para trás. Todos no ônibus prendem a respiração ao mesmo tempo. Alguém suspira.  Um grunhido escapa da garganta da senhora e aquela voz estridente, carregada de ódio, volta a soar.
– Não tem ônibus? Como assim você me diz que não tem ônibus? Olha só aqui, outro 702! Que absurdo! Você tá atrasado!
– Tô atrasado não, senhora.
– Não. Minha vó que tá atrasada. Idiota! Ai que raiva!
Meu ponto está próximo, mas tenho medo até de passar perto da mulher. Engolindo meus temores, consigo chegar até a porta. Dou sinal. Só mais um pouco, penso, logo estarei livre dessa situação constrangedora.
As pessoas olham de cara feia para mulher s de cara amarrada. Algumas comentam entre si, outras murmuram palavras como “barraqueira”, “mal-educada” e outros adjetivos, com a intenção de serem ouvidas. O ônibus para. Desço rapidamente os dois degraus que me separam da liberdade, mas consigo escutar uma última frase antes de a porta se fechar atrás de mim:

– Nossa que ódio. Eu vou acabar infartando de nervoso nesses ônibus. Idiota!

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