BEDA #7 - Lendo Os Miseráveis: semana 1

agosto 07, 2017


"Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social, forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome, e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis"
Hauteville-House, 1862 (Victor Hugo) 

Com este prefácio mais do que impactante e ainda super relevante 155 anos mais tarde, dou inicio ao primeiro post da minha (saga de) leitura de Os Miseráveis. Como comentei há algumas semanas, eu e minha grande amiga, Ana Luíza, começamos a ler juntas este livro tão incrível e desafiador (e enorme) com o objetivo de incentivar uma a outra a ler alguns clássicos, e eu batizei carinhosamente essa nossa empreitada literária de Pequeno Clube do Livro.

Bom, antes de falar sobre o que achei dos capítulos que li até agora, quero comentar sobre a minha edição. Ela foi impressa em 2014 pela editora Martin Claret, com tradução de Regina Célia de Oliveira. Nesta edição, há uma introdução assinada por Jean Pierre Chauvin, um pesquisador do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, da USP. Extraí algumas curiosidades dessa abertura.

  • A linguagem do livro era considerada popular na época (1862).
  • Victor Hugo era contrário ao império de Napoleão III e se auto-exilou em Guernsey, território da Coroa Britânica, já naquele tempo, por quase duas décadas.
  • VH voltou para a França em 1870, data da queda de Napoleão III e foi eleito para a Assembléia Nacional e mais tarde tornou-se senador.
  • Acredita-se que quase 2 milhões de pessoas teriam acompanhado seu enterro.
  • No Brasil, VH influenciou José de Alencar, Castro Alves e Machado de Assis, três grandes nomes da literatura brasileira.
Minhas perspectivas sobre a leitura:

Eu conheço a história de Os Miseráveis através de filmes. O meu favorito é a versão de 2012 dirigida por Tom Hooper, que conta com Anne Hathaway, Hugh Jackman, Eddie Redmayne, Russell Crowe e outros grandes nomes no elenco. Nunca antes tinha chegado perto do livro, apesar de eu ter uma certa adoração por Victor Hugo. A leitura de Os Miseráveis é bem tranquila. Ela flui muito bem e podemos perceber o enorme conhecimento do autor pela história de seu tempo. 

Victor Hugo constrói a narrativa como se constrói uma casa: tijolo por tijolo. Ele não poupa detalhes, mas o faz sem exageros e conta fatos da vida de cada personagem que, além de os aproximarem do leitor, tornando-os mais humanos, e também nos levam a entender suas motivações e personalidades na atualidade do livro. A obra é dividida em partes, livros e capítulos. A primeira parte se chama FANTINE. Nesta primeira semana li os livros I e II (até o capítulo VII).

O primeiro personagem que nos é apresentado é o senhor Myriel, Bispo de Digne, também conhecido como Monsenhor Bienvenu. Ele é descrito como um homem de aproximadamente 75 anos, uma pessoa muito boa e de coração enorme: ele não apenas cumpre suas obrigações sacerdotais, mas também vive como um verdadeiro bem-feitor, ajudando os pobres e necessitados de todas as maneiras que ele conseguir. 

"Verdade ou não, o que se diz a respeito dos homens ocupa muitas vezes em sua vida, e sobretudo em seu destino, um lugar tão importante quanto aquilo que fazem"

- Victor Hugo

Aqui, recorro às palavras de Jean Pierre (introdução): o bispo  aparece logo no inicio do livro para "conceder o necessário consolo espiritual". É tão bom acompanhar sua jornada em auxílio aos que precisam, que a gente até se sente com o coração mais leve. Monsenhor Bienvenu recebia um ordenado de 15 mil Francos do Estado. Dessa quantia, ele separou apenas 1 mil para suas despesas pessoais, e o restante dividiu de maneira a beneficiar sua comunidade. Em Digne, o bispo vivia com sua irmã Baptistine e a senhora Magloire, despenseira da casa. 

Toda essa construção de seu caráter e atitudes servem, como mencionei anteriormente, para nos fazer entender o porquê de suas ações quando ~tchanam~ seu caminha cruza com o de Jean Valjean. Eu não sei nem como começar a falar sobre ele. Geralmente, nos filmes, vemos o personagem "por fora" e a representação de seus sentimentos dependem muito do quão bom o ator é e o que o diretor resolveu destacar. No livro, como nosso autor é onisciente, conhecemos o interior de Jean Valjean, seu pensamentos pré e pós cadeia e vemos como os 19 anos que ele passou encarcerado, fazendo serviços pesados e passando por castigos transformaram sua percepção da vida e o fizeram se fechar dentro de si cada vez mais. Preso por roubar um pão para alimentar sua irmã e seus sete sobrinhos pequenos, Jean Valjean o "inofensivo podador de Faverolles" se tornou capaz de realmente praticar más ações. 

"Seria quase verdadeiro dizer que para Jean Valjean não havia sol, nem belos dias de verão, nem céu límpido, nem frescas manhãs de abril. Não sei que réstia de luz iluminava habitualmente sua alma".
- Victor Hugo

Ao chegar a Digne, o ex-prisioneiro é enxotado de duas estalagens e até mesmo de uma "casinha de cachorro". Uma passagem muito impactante desse momento é quando ele pensa ser "menos do que um cão", pois até o animal tinha um local protegido e aquecido onde descansar. É ali, ainda, que ele é tratado com piedade - pela primeira vez em anos - por uma senhora que lhe dá algumas moedas e fala para que ele bata à porta de Monsenhor Bienvenu. Na casa do bispo (que, na realidade, é tratada por ele como "a casa de todos" sendo ele um servo de Deus), Jean Valjean é acolhido, alimentado e tem a chance de dormir em uma cama macia "com lençóis limpos"

Até aqui, confesso que me surpreendi positivamente com a leitura. Eu abri o livro com muito medo, pensei que a linguagem me faria travar e que seria impossível ler a quantidade de páginas que combinamos até o deadline (ontem). Mas aconteceu o contrário: a escrita e Victor Hugo é tranquila, feita para ser compreendida por qualquer pessoa. Estou amando conhecer a fundo essa história que tanto amei ao ver o filme de 2012, e sobre a qual ouvi falar a minha vida toda (através de professores). É ótimo pode conhecer todos os detalhes que se perdem em uma adaptação cinematográfica, mas é especialmente incrível finalmente estar lendo esse grande clássico da literatura.

Semana que vem tem mais!

💢

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4 comentários

  1. É uma história maravilhosa e sempre muito atual. :) Adoro!
    Beijos!

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    1. Muito atual, realmente. Eu estou me surpreendendo muito com a leitura, é ótima!

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  2. quem sabe um dia eu tenho coragem, parece incrível!

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    1. Meu, comece! Eu tinha medo até de abrir esse livro, mas a leitura é super tranquila, não é aquela coisa rebuscada e flui que é uma beleza!

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Obrigada!